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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

28 de Janeiro

Por Marcos Araújo

Passa as chaves, João. Passa teu celular, passa tua pasta, tuas calças, seu sapato, seus segredos, já passara há tempos a confiança, agora passa o tênis, conserva o medo, passa teus olhos a me evitar, e a me identificar como um não Ser, como moléstia decadente que contagia adstritamente o que toca, o que anseia, o que olha com olho bandido. Passa, mas não fala, João. Cala  – na verdade  – passa tua voz, teu pranto, tua felicidade, deixa arrancar de ti toda mansidão que me falta, deixa arrancar-lhe teu pão, tuas vísceras alumiando a noite espúria feito âmbar, passa teu tempo e teu horror, meu alimento, passa correndo a carteira, documento – pra que enfim seja eu alguém. Arranca teu cordão, despe das vestes, nem pede arrego a quem não te quer ouvir. Se fores arrimo de família, filho, ou irmão, passa-me então a tua vida que nada vale nesta trilha qual malogrado tempo emergiu, passa a lembrança, o riso calmo. Arranco-lhe a vida, encerro-te ao passo em que tudo perde, em que tudo passa.

2 comentários:

  1. Uau... Adorei!!! Um tanto profundo e muito bem escrito. Parabéns.

    Beijos

    http://verdadesintrinsecas.blogspot.com/

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Se não leu, não comenta bobagem certo?
Obrigado o/