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domingo, 17 de junho de 2012

oração epistolar



Tu que não respeita nada, nem a pele negra que te guarda: respeita as ayabás, os orixás, a Senhora-Mãe Menininha do Gantois, respeita os caboclos que se espreitam neste quilombo, não faz desfeita do costume que oprimes, respeita meu atabaque e meu terreiro, não me aceita – RESPEITA –, respeita e só. Nosso São Jorge, nosso sangue sagrado, meu suor, respeita a baianidade nagô, e todos os padroeiros da Bahia, respeita que faz bem e ilumina o coração. Não me aceita não, não é assim que me esmero. Entre a dúvida e o vitupério: Respeita.


Por Marcos Araújo

06 de maio


 Pediram-lhe algo pra vestir, e Ele atendeu o moço. Adornou-lhe com um manto distinto, bordado com os fios de um universo paralelo, e se fez no tecido uma força quase coesa, quase bonita, quase reluzente feito ouro, feito prata, feito imitação. Podia ser tudo, conquanto não fosse o que de fato lhe faria regozijar, era um manto de monta aos olhos de quem via, mas em verdade não tinha valor, era demagogia inscrita em forma e matéria travestida de Amor.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

dos desencontros

Doutor, é que não tenho trilhos, nem tribo, ando por esse lugar pra alimentar meu coração, minha arte, para me banhar na líquida fluidez da vida. Ando a par do tempo e das coisas, vejo tudo, bem atento, nada passa por mim sem despir primeiro as indumentárias da aparência, do ardil. Afasto o bom e o injusto, sequestro todos quanto posso abrigar no avesso do peito. Não tenho dinheiro no bolso, mas jaz em torno de tudo o que toco a ideia grão, o princípio - é o meu escudo, guarida erguida para os dias que virão. Veja bem, doutor, tudo em vida é encontro e despedida feito aquela canção, e quantos aos outros, aos mesmos, aos “nós”, eternizo a voz doutro amigo: não se deve aliciar o pranto pra quem já houvera partido.

Por Marcos Araújo

sexta-feira, 27 de abril de 2012

substantivando



Eu vou embora cedo e não voltarei ao ponto de partida, não aprendi a reverter os ponteiros nem desvendar o fronteiriço terreno da verdade, minha sina e o meu compromisso é com que ainda não nasceu, com a música ainda decomposta, com o mundo que  não vi porque só existe nessa sombra vaga que é o Amanhã, assim mesmo, feito substantivo próprio. Não volto e nem hei de voltar porquanto os passos que se encerram ao meu redor não me acompanham, a maioria sequer me apetece; portanto tornar-me-ei espécie distinta por aí, me hostiliza e avilta essa hora vaga que vivo e não me permite aprender uma infinidade do tudo que ainda não senti. Transcrevo então o poeta cuja palavra se fez eterna:

" - Meu tempo é quando ".

Por Marcos Araújo 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

joão sem terra




Misógino gentil:
Tu és letra morta
Informa em mim o que há de pior
Perde-se na desordem da rima
Inquina de miudeza a rima torta
Jaz dos fundos, foge às clareiras
Perpassa a janela, enquanto entreaberta a porta

Esvai daqui, ignominioso
Ruma alhures com teus laços tristes
Decai enquanto peso, pedra no sapato
Misantropo, nefasto, rei do que é ruim
Lobo aspirante a homem travestido de pedra
Medra noutras fontes e te retiras daqui
Tão certo que te deixo, quão cedo que partes?
O que é seu tranco às chaves. Esquecer-me-ei de abrir.  

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eike Batida

Por Marcos Araújo


"O filho mais velho do empresário Eike Batista com a ex-modelo Luma de Oliveira, Thor, 20, atropelou e matou um ciclista na noite de ontem, no Rio de Janeiro"
Provavelmente blindado, onírico feito, Deus dos asfaltos, prece dos pleitos de pobres farrapos, e tudo o que há pela frente ele esmaga ou ultrapassa, contabiliza na carteira micro pontos do dono, nem vistos, malquistos, despercebidos em legítimo descaso. Calvino brindou o trabalho, Batista enriqueceu, Wanderson, joão-ninguém-meeiro-farrapo, até então fora do estrelato das estatísticas decrépitas das covas, malgrado o assassinato, logo paira esquecido no inquérito e a cifra em campo aberto faz o jogo, despoja a rainha, o bispo e o xadrez, apaga do chão o sangue d’outro pobre aThormentado, e refresca em tom manso e malsinado que nada passa de acidente; no entanto, nos dias correntes tudo se projeta à frente da Justiça que opera ao contrário. AThorpelados que somos, atarantados, perplexos de tanto andar em sentido anti-horário, amando a estética do etéreo e escarnecendo em descrédito o mal encontradiço que habita, nos fita, e transforma todo momento em temerário. Mil pés te afastem do acostamento, das margens que faz o marginal, da Thorpeza que aprodrece o poente a findar mais um dia de trabalho e a felicidade que se espera no final. 

Leia mais sobre o caso: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1063633-familia-de-rapaz-atropelado-diz-que-vai-processar-thor-batista.shtml

quinta-feira, 1 de março de 2012

4ºPODER

 Por Marcos Araújo

A voz do Judiciário tem sido o sussurro do facínora amorfo escondido por trás das câmeras e das edições dos jornais que nos acompanham no limiar do dia, nas rádios, nas redes sociais, na televisão, etc., de um modo tão intrusivo que o imaginário psicológico da maioria se vê cambaleante ao sustentar conceitos errôneos de justiça, princípios e bons costumes, terminando por primar pela barbárie, por um Estado eminentemente vingativo, nos mesmos termos propostos por Kant e Hegel outrora, nos moldes da Lex Talionis

No caso Lindemberg, por exemplo, não o qualificaria vítima, entrementes, produto da associação da institucionalidade do Tribunal do Júri, imanente do texto Constitucional, com “C” maiúsculo, com os auspícios sanguinários da opinião pública e da evidente contaminação do Poder Judiciário por um poder paralelo, este com “P” minúsculo, aos meus olhos, estranho ao nosso Estado Democrático de Direito da forma que atuou/vem atuando - o quarto poder.

Na Bahia o Projeto de Lei sutilmente nomeado como “Anti Baixaria”, já aprovado e vastamente noticiado, proposto pela Deputada Estadual Luíza Maia (PT), dispõe que não mais se utilizará recursos públicos para efetuar contratações de bandas cujas músicas conspurquem a imagem e essência feminina.  Aqui, retorna-se para a mesma problemática sob outro enfoque.

Certamente o termo “ressocialização” diante do sistema penitenciário brasileiro represente absurdo sob a perspectiva individual de cada cidadão, remontaria situação análoga com a lei. Será que devemos educar a sociedade para que possa julgar o que ouvir, como se comportar, como interpretar as informações que até ela chegam, ou seja, torna-la pensante? Ou devemos outorgar-lhe o papel de mero receptor, aquele que permanece investido em políticas que tendem a tratar nossas mazelas como árvores, quebrando-lhe os galhos e mantendo as raízes no mesmo lugar. Inútil, cabeças racionalizadas entregues ao efeito rebanho.

A celeuma não habita no Big Brother, na duvidosa credibilidade (?) da Revista Veja, no sucesso de verão de Michel Teló, nas desditas levianas da mídia acerca de tudo e de todos, tal como suas perigosas sentenças que fazem o princípio da presunção de inocência mais inócuo do que nossa covardia política; sobretudo, o grande descalabro é o despreparo de boa parte dos cidadãos de captar, pensar e julgar toda situação como um Universo em particular.

A desconstrução do poderio midiático se perfaz de dentro pra fora de cada indivíduo. Que o Judiciário cumpra com seu papel jurisdicional de acordo com os princípios que o equilibram, que nós saibamos compreender e entender que Democracia também se constrói em casa, valorando o que é frutífero, e percebendo o que não o é, no mínimo, com a destreza de um homem médio, para que amanhã ou depois nossas filhas não precisem de um ou outro projeto de lei para que não se identifiquem com cachorras, gatinhas, ou quaisquer qualidades que façam delas o lixo com o qual muitas mulheres hoje aprenderam a se identificar.Só funciona na TV.