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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Não mexe comigo. Eu não ando só.



O sol raiou sobre a terceira maior cidade do país, Salvador, e seu povo sabe que agora poderia simbolicamente rasgar em pedaços miúdos a Constituição do Brasil. Ao povo soteropolitano, ontem, dia 20 de junho de 2013, que não sairá da memória daquele que saiu às ruas em paz, mas que teve que largar seus cartazes de papel para engolir as balas de borracha da Polícia, foi negado sumariamente o direito à livre manifestação. Erro meu, crasso talvez, pensar que só hoje a Constituição poderia ser rasgada – quanta bobagem. A favela já convive há muito com a carta de boas intenções anunciadas pelos direitos fundamentais do homem. Vi ainda frases nas redes sociais apontando que o massacre no Dique, na Avenida Sete, Joana Angélica, Campo Grande, e Ondina, representam a ação policial que saiu da periferia para deixar aquele abraço do Estado pra crianças, adolescentes, adultos e idosos de diversos estratos sociais.

Quando os primeiros protestos despontaram em São Paulo, inicialmente pelo reajuste da tarifa do ônibus, questionava sempre em que passo e como as coisas saíam do controle, como a barbárie se iniciava  e tudo ruía. O que meus olhos não alcançaram nas ruas de São Paulo ou pela TV e suas coberturas duvidosas, meu coração soube captar bem. Uma manifestação plural e pacífica que saiu do Campo Grande com o sol a pino sob nós, seguiu em marcha firme numa missão de resgate e conquista de direitos. Uma ideia na cabeça, no peito o típico ufanismo exaltado em tempos de copa vertido na direção da ordem e do progresso, lá ninguém desembraiou espadas em riste. Carregamos sim gritos barulhentos em nossas mãos na perenidade silente dos cartazes. A mão do Estado, que nunca está vazia, puxou o gatilho, e bateu palma para nós, pra cada uma delas uma bomba sobre nossas cabeças.



Senti na pele o terror daqueles que estão no Poder. Manter o status quo é o objetivo, e pra isso é preciso que se faça silêncio. O povo não pode ir às ruas e dizer que se cansou. Falaram que o país está vomitando. É verdade. A ação policial, ao contrário da informação propalada em diversos veículos da imprensa, não se verteu para proteção de pessoas e do patrimônio público, pelo contrário, ontem o medo da polícia era maior que o do ladrão, digo, o ladrão que toma seu celular e seu relógio, não o patrão do policial que te alvejou - contra esse gritamos. Na região dos Barris, a polícia arquitetou uma emboscada para os manifestantes, permitindo a passagem por determinado perímetro para posteriormente atingi-los com os artefatos disponíveis. Em uma palavra: covardia (cabe numa palavra só?).

Houve dispersão, correria, confronto, um sentimento de impotência que vinha se permeando de raiva, potencializando o pior dos instintos humanos, e vi algumas cenas se repetirem. Vi a liberdade do povo espezinhada pelos interesses da FIFA diante de tremenda violência, vi também no centro de Salvador o que outrora acompanhei de casa nas fotografias e relatos dos protestos no Sudeste do país. A desconformidade perante a falta de proporcionalidade e razão da ação policial conduziu a massa, irascível que é, ao confronto direto, à destruição, e mesmo que nada se justifique ou se anule reciprocamente, é isso que acontece quando se tenta calar a voz  e o ideal de um povo empunhando armas. Não incluo nesse rol a súcia de malfeitores e sevandijas à margem do movimento que saíram tão somente para roubar, destruir e conspurcar a passeata.

Ao caminhar com parte dos manifestantes para a Ondina, de algum modo foi acalentador assistir pessoas em suas casas piscando as luzes dos seus apartamentos denotando apoio ao movimento, mesmo que não tenham ido às ruas, do mesmo modo, foi bonito ver a manifestação seguir e crescer ao longo do caminho, ganhando novos asseclas, sem vandalismo ou violência (sem a presença em massa da polícia até a Avenida Oceânica). No entanto, durante esse percurso também acompanhei a expressão, o desconforto e a represália de civis que nos hostilizavam como se estivessem alheios a nossa causa e não vivessem no mesmo país que poderia ter financiado as últimas três Copas do Mundo com o valor gasto para realizar a nossa. Pessoas que aparentemente não encaravam a violência urbana tal e qual como é e como eu encaro, ou que desconhecessem a situação do nosso transmorte público, hospitais, escolas etc.



No desfecho desta caminhada pacífica, por volta das 22 hrs, quando havia uma concentração considerável de pessoas entre a Avenida Oceânica e a Ademar de Barros na Ondina, ocorre o que costumamos denominar de gota d’agua quando o  limite do absurdo se apresenta inominável. Policiais da Tropa de Choque avançaram sobre manifestantes desarrazoadamente com toda truculência e ódio com muita rapidez, houve inclusive uma bomba da polícia dentro de um ônibus, causando pânico nos passageiros. O recado foi dado: Vocês podem bater sem machucar, não saiam às ruas, manifestação só nas redes sociais, mas se saírem... lembrem disso. Lembraremos, e ainda há fé que essa recordação reforçará a força que só contempla a união dos cidadãos.

A polícia continuará a salvaguardar interesses que não lhe comunicam, nem a mim. A FIFA, o Estado, empreiteiros e todos os outros que auferiram vantagens ou lucros da Copa estão numa ciranda solitária ao redor do povo brasileiro, jogando uma tinta nova sobre velhas estruturas de poder para que apeteçam o olhar dos incautos, escondendo mazelas, oprimindo a voz de quem não quer calar. Não quer e não vai. Somos maiores que eles, o rastro de pólvora espalhado em nosso território tende a acabar com a brincadeira antes da hora. Sejamos fortes e obstinados para dar uma resposta a tanta barbárie.

Um dia após as manifestações não há outro assunto nas redes sociais: Depoimentos, fotos, reportagens, vídeos. Alguns se destacam mais. Há aqueles que não foram às ruas, mas ficaram ansiosos para acompanhar o noticiário, concluindo posteriormente que “a polícia estava cumprindo ordens e fazendo o trabalho deles ”(sic), outros ainda pensam que “não há motivos para o povo ir às ruas”(sic), acompanhei também o comentário de um amigo fazendo referência ao tempo do PFL, afirmando que não há como comparar a repressão atual (no governo esquerdista do PT representado por Jaques Wagner) com a repressão daquele tempo. Foi então que me recordei de uma aula de história na oitava série sobre o Brasil Império: “Nada mais conservador que um liberal no poder. Nada mais liberal que um conservador na oposição”. São faces da mesma moeda com seus pequenos matizes.

Não permita que calem sua voz.

Por Marcos Araújo


domingo, 5 de maio de 2013

hemisférios do zodíaco


Dos planos serei comandante
nas águas salobras do equívoco
desmedindo um mito, refazendo
refletindo consciência de menino.

Caminho, eu, equidistante
deitado ao céu e ao sol dos amantes
que fervilha em negra pele rubra
em rubra pele, amante e negra.

Destelha meu Ser e Razão
e escoa-me num mar desconhecido
que, decerto, outrora naveguei
com a azáfama dos desinibidos

Trago a sorte de quem já amou:
vivo, e experimento o risco
vivo e conheço dos signos
vivo aprendi -  amor só morre de câncer.

Por Marcos Araújo

sábado, 30 de março de 2013

palavra: freios e contrapesos



Dentre os Crimes Contra a Honra, Capítulo V do Código Penal Brasileiro, figura no artigo 138 a figura típica da Calúnia, in verbis: “caluniar alguém imputando-lhe falsamente fato definido como crime”. A proteção do bem jurídico é tamanha que o dispositivo atinge aquele que conhecendo a lesão à honra de outrem se investe no papel de divulgar a informação danosa, até a honra dos entes queridos é preservada pela abrangência do tipo. O discurso de que “quem tem boca fala o que quer” já não é mais novidade, e muitos falastrões menos incautos ainda invocam direito constitucional da liberdade de expressão pra embasar o falatório, alguns guarnecidos de razão, outros nem tanto, muito pelo contrário, para alimentar discursos raivosos, de ódio, como aqueles que trilharam os caminhos de Cristo até a cruz, e os que estamparam na história a marca do Holocausto. A palavra, por vezes, tem potencial lesivo que sobrepuja a lâmina da faca ou agilidade da bala, com os signos da palavra se faz a informação que encontra nos dias atuais seus mais diversos veículos, perspectivas, amplitude, falar o que quer nem sempre o é, mas não perde a possibilidade de se configurar como crime – digo isso para que se compreenda o peso que acompanha a expressão. Freud é muito feliz numa de suas passagens que sintetiza bem a ideia que reside em mim: "O homem é dono do que cala e escravo do que fala."

Torna-se escravo do que fala aquele que não compreende o limite de sua liberdade, pois que se ilimitada fosse, os arbítrios de uns e outros nesse mundo anular-se-iam reciprocamente, mais que isso, a própria figura do Estado seria ameaçada diante da periculosidade do exercício insubordinado e desmedido da liberdade. Por essas e tantas outras é que vejo com estranheza a declaração de Joelma, vocalista da Banda Calypso,  quanto à homossexualidade em geral. É fato que ninguém poderá extirpar de qualquer pessoa convicções particulares, filosóficas, políticas, religiosas, seja elas de qual origem for, portanto é compreensível que a figura pública (inevitavelmente formadora de opinião), pugne por preceitos bíblicos que incorrem na condenação sumária da homossexualidade, inclusive compreendo/apoio/defendo o seu  direito de não enxergar com bons olhos o casamento gay, a  divertida música já diz: “cada um no seu quadrado”. O que de fato reclamou minha atenção foi a infeliz comparação da possibilidade de conversão do homossexual ao status legítimo/saudável de hétero com aquele que vive entre às drogas; e, é sabido que as drogas se tornaram verdadeiro câncer da nossa sociedade. A fala é reveladora de uma tendência eminentemente heteronormativa e agressiva. 

No perfil do twitter da banda a vocalista ainda complementa: “Falo em recuperação porq conheço pessoas q saíram dessa. Foi muito difícil mas, Deus pode absolutamente tudo”. Não há de se questionar o mérito da banda, dos fãs ou da música, enquanto, em verdade, o que se fez foi comparar um homossexual, espezinhado que já é pela estupidez alheia, com o sujeito que pelas mais variadas razões ulula pelas ruas debaixo do sol e da lua, rouba seu relógio, no transe fornecido pelas pedras de crack; compara o gay com aquele filho, irmão, conhecido que perdeu a identidade e desde então vende os móveis da casa para custear o vício da heroína; compara inclusive muitas pessoas com essa marca toda especial que só a homossexualidade oferece com o pai que destrói sua família afogando-a em diversas garrafas de pinga. Se ser homossexual ou dependente químico é uma questão de “ser” ou “estar”, reservo-me na mesma estranheza com a qual pensei esse discurso pela infelicidade do desequilíbrio dessas palavras; que enraivaram alguns, encetaram o riso de outros, que armaram admiradores da banda até os dentes com o melhor estilo “fé cega, faca amolada”. Em mim, não criou novel sentimento. Não se trata da primeira ou da última pessoa a vociferar tal comparação, mas em tempo de Feliciânus, Boçalnaros, e MALafaias, concluo que a oportunidade de ficar calado sabe presentar a liberdade de dizer o que se pensa.

Se o Deus de Joelma pode absolutamente tudo, acenderei hoje tantas quantas velas forem necessárias para iluminar os caminhos do Ser Humano e minar o seu coração e suas palavras de Amor. É preciso uma dosagem extra de coragem para expor a face na iminência do tapa, muito mais coragem e esforço para se tornar pessoa melhor do que era antes de receber um desses bem violentos, daqueles que deixam a marca da vergonha no rosto e na alma. É num ínterim solitário que eventualmente me separa do tempo e do espaço que exprimo a sincera crença numas das leis que embasam a natureza das coisas, se é fato que nada se perde e nada se cria, que se transformem e deformem a realidade feia que circunda, meus olhos já estão machucados por demais.


Por Marcos Araujo

quarta-feira, 13 de março de 2013

verborrrrrrrágico



Tô azul, tô retado, tô azedo, mas não tô com medo não. Eu tô pra não Ser e nem perpetuar, eu tô pra Estar não pro mais do mesmo. É que vivo sem receios, e minto. Acabei de mentir. Quanto medo tenho de Ser a “opinião formada sobre tudo”...só eu sei. Tô com raiva, e a palavra trava no dedo, parece até pesadelo, mas desde guri aparento valente. Tô triste também, Caê; que nem você nascido nesse mundo, ávido pra dizer tudo, ávido pra sentir tudo, ser tudo sem Ser, viver e cantar, – talvez. Tô é com raiva desse banho que me enxagua a cara amarrada e não se põe a lavar minha alma. 

Por Marcos Araújo

domingo, 3 de março de 2013

resiliência

O escroque e o chorume da Terra se deitam nas águas de março deste lugar que era meu, e novos rumos se espreitam neste mesmo plano, meu corpo e minha ilusão etérea fazem festa, pois no silêncio entre o equívoco e a satisfação mora ela, minha felicidade de menino que não se pode perder.

                                                                                                                             Por Marcos Araújo

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

vistes?



Não vê a menina suja pedindo trocado no sinal, não vê a mosca solta sobre a ferida alheia, não vê o que despenteia, nem o que mata, que dirá o que estraga a família inteira, não vê o morto de fome, nem o morto-sem-nome, se esbarra e não pede desculpa, não vê boa conduta, nem ama de igual pra igual, vê teu sexo e com quem se deita, qual laço se enfraquece, mas quem adoece só é visto no Final. Não vê o que nos cala e incendeia, ignora quando a brisa é farta e a clareira dos céus sobre o mundo. Não vê Maria ou João sem sobrenome, nem a truculenta solidão que consome, não vê nada além do olho roto que mira a TV feito esgoto afogando  e afagando, e informa quão raro é quem olha, quão escasso quem enxerga. Não vê coisa séria se tudo é estupidez, ignora sensatez, e zomba do policial parado na esquina esperando a morte chegar feito bailarina girando com sua sorte. Não vê quem mata sem faca,  e escolhe não perceber pequenas chacinas contidas no nababo escroto/deputado federal apontando sua arma de lá do Congresso. Candelárias, Realengos, Pinheirinhos:  Não vê. Quem viu? Não aguento. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A festa de Momo tem cor?




No primeiro dia de carnaval ouvi algo que me chamou atenção, se trata daquelas coisas que a gente escuta aleatoriamente e não sai de forma alguma da nossa cabeça. Pois bem. Detesto discursos tendentes a generalizar a homofobia, o racismo, a xenofobia, pois que me parece moda encalacrar todos os males do mundo nessas legendas, mas ouvi com estranheza na quinta feira passada uma jovem branca de classe média alta dizer que o mentor de “Gangnan Style” só estava chamando tanta atenção pelas ruas soteropolitanas por conta da aparência, mas o Presidente dos Estados Unidos, sua mulher e filhos, poderiam vir tranquilamente e ficar no meio do povo, todos pensariam que a família Obama estaria camuflada vendendo cerveja no isopor.

Não compreendi, ser preto é pré-requisito pra vender cerveja na rua? Curioso foi vivenciar por três vezes em ocasiões distintas durante a folia a confusão que transeuntes faziam ao me confundir com um vendedor de cerveja, naturalmente, essas pessoas lançavam um olhar apressado, pediam as populares 3“periguetes” por cinco reais (pequenas latas de cerveja), estendiam o dinheiro, e como a situação seguia com o meu silêncio, se fazia o constrangimento no ar, portanto saíam em silêncio e fingiam que aquilo não havia acontecido. Ao relatar o acontecimento numa das minhas redes sociais um amigo fez o seguinte comentário: “Sou o preto que supervisiona uma equipe de 18 pessoas num hospital de grande porte, mas quando vou à padaria, sou atendente, numa loja, sou atendente, nunca no caixa, jamais cliente”. Não preciso da luz de um gênio pra notar que é assim comigo também.

Duvido que haja quem creia que quem passa todo o carnaval dormindo nas calçadas dos Circuitos Dodô e Osmar esteja feliz (não raro famílias inteiras), onde a gente pisa, pula, e cospe, por onde o povo urina; lá muita gente vê o trio elétrico passar enquanto vende cerveja, cachorro quente, espetinho de churrasco etc. Ainda assim, não derramo uma gota da dignidade desse labor, e creio mesmo que apesar da miséria, se trata de dinheiro honesto, certo que a assertiva já é clichê – diga-se de passagem, um dos melhores – se é vergonhoso vender cerveja na rua, o que diremos de quem sai de casa disposto a enfiar uma faca na sua cintura e levar seu dinheiro, seu celular e/ou sua vida? Não sei se meu medo de entrar numa grande neurose com questões de raça, gênero, regionalismos, pode ser maior do que as dúvidas que vieram à tona: um preto perto de um isopor na festa momesca só pode ser vendedor? E no camarote, é o garçom ou o segurança? Em cima de um trio, o que eu seria? A coincidência bateu na minha porta três vezes ou se trata de um gérmen asqueroso guardado na consciência coletiva da nossa sociedade?

Gostaria humildemente de responder essas questões com equilíbrio necessário para pensá-las sem quaisquer vícios, com mais delicadeza e neutralidade, se possível for. Entretanto, só há uma dúvida que não me comunica, pois que nem poderia me pertencer: já me sinto da família Obama. 

Por Marcos Araújo

domingo, 10 de fevereiro de 2013

02/13


Não houve outro tempo pra mim que aproximou tanto a tênue linha que existe entre os sentimentos, todos eles, dos que se reprimem no coração aos que perpassam os lábios, as mãos, os braços que se cruzam; e, ainda que se trate de covardia, que boa era aquela época que acreditava na promessa do desenho animado me informando que se existe bem e mal nesse mundo, coexistem em universos distintos, cada qual com suas peculiaridades. Não era  verdade,  descobri  que esse maniqueísmo inventado só nos inspira a sofrer menos, enxergar as desgraças da vida com menos tristeza. Apesar disso tudo, e de nem me considerar homem feito ainda, não sou uma pessoa má, nem como se diria nesse mundo nem o seria num desenho. Falível que sou, passível de erro, de cair doente, de chorar vendo filme, de me distrair ouvindo música boa, de amar, de amor, não sou uma pessoa má. Sou gente de verdade. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

videogames



Avisa pra Mário que o enganaram por toda vida, mas é melhor não contar dos irmãos mais sofisticados que vão aparecendo a cada nova versão do game, pode magoar. É que não se trata mais de salvar uma princesa trancafiada à própria sorte num castelo, não se trata de matar o dragão e ser herói, se puder, avisa pra o Luigi também. Essas finalidades não convencem mais, ao menos desde que abandonei a tenra idade, Mário não pode ser herói se não juntar a maior quantidade de moedinhas douradas, dane-se a princesa, o castelo, e o dragão, que se multipliquem e destruam em fogo o jogo. Se Mário não juntar, não conseguir, ou até mesmo se perpassar os portões do castelo e a princesa salvar, sua história só vai parecer valiosa diante do olhar desnudo do infantil jogador, que ainda não faz vida negócio, barganha, competição. Essa é a grande obrigação: junte as moedas de ouro ou caia fora do jogo.

Por Marcos Aráujo

terça-feira, 16 de outubro de 2012

é o grito


É grave o nosso estado de greves de fome de gente que pensa. É grave a FIFA querendo invadir a dispensa e jogar fora o prato da casa, sentar na mesa, por os dois pés no sofá, é grave tanto jingle eleitoral, tanto panfleto entupindo a boca de lobo que não se cala mais que muito cidadão, que entope e cospe essa sujeira que parece correr nas nossas veias. Tão grave é ninguém se importar, com nada e com que quase ninguém, amar a tudo que não prospera, tudo que passa e não deixa mais que marca pueril, o consumismo desalenta, a esperança não satisfaz mais, é tanta vírgula violentando as reticências que nunca darão um fim na gravidade dos fatos que se escondem nessas palavras malcriadas. É grave tantas greves e não são por acaso, aliás, nada é por acaso, e não é por desamor ao homem que vejo com descaso a matéria da Folha velando o nababo carbonizado na milionária lamborghini incendiada no estreitamento funesto da estrada, sorte é de quem não estava lá, no malsinado fato pra ver seu brio ceifado pelas mãos d'outro Thor Batista, e virar estatística pra nossa gente ver e esquecer. Tenho medo do que é grave é ninguém liga, principalmente dessa chacina intelectual assistida do primeiro ao terceiro P(h)oder que festeja o coma do povo





Por Marcos Araújo

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

casarão


De madrugada não é hora de arrumar a casa, nem de lavar a roupa suja acumulada, é tempo de silêncio no qual o corpo sente a euforia dessa angústia de querer fazer tudo numa só hora. Abro as janelas, ligo a TV, leio escritos doutra vida em que chorava à toa, sem saber por que chorava. A vida era boa e olvidei, agora vivo omisso com a luz apagada e não enxergo a balbúrdia da casa que grita, ulula, e pede com fala mansa pra reconstruir-se sobre si. Desarrumada que está, ora, pois, pouco me agrada.  Tomba a estrutura deixa ruir essa essas paredes que sequer me comunicam o lar, deixa que baguncem, deixa bagunçar e ruir até o final, até tombar, não vou me levantar com a intenção de fugir, vou ficar aqui sem arrumar a casa. Eis que desaba o teto que acalentou, se esvaiu o chão que sustentava, e nada restou da bagunça, tampouco dos esconderijos da casa, nada resta além da lágrima falada. 

Por Marcos Araújo

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

para não perder o pensamento




Com certa tirania da minha percepção não posso deixar de reconhecer que o sistema operacional do smartphone que uso é mais dinâmico do que muitas pessoas que se situam no tempo e no espaço repetindo mandamentos tenros, executando tarefas descontextualizadas do todo sem saber pensar em si como parte integrante de um sistema que é contínuo pela existência e hierárquico pela própria natureza. Repetir certos comportamentos me inquieta até mesmo quando medram de um fato cultural, isso sempre traz uma dose de temerosidade. Se o mundo é heteronormativo, se as relações se espraiam no elitismo, se é obrigação fazer o sinal da cruz e pedir misericórdia à Santa Trindade toda vez que passar na frente da igreja, eis meu prognóstico, e meu autismo voluntário.














Por Marcos Araújo

domingo, 12 de agosto de 2012

res publica


Ao caminhar pelas ruas e ouvir os inúmeros jingles eleitorais, os panfletos espalhados enxovalhando a Av. Manoel Dias, os diversos comitês espalhados pela cidade, e já perceber o item negocial típico das eleições que vincula o mau eleitor ao gestor pernicioso, é que afasto as últimas dúvidas quanto ao crescente interesse das pessoas em se ocuparem das atribuições de vereadores, prefeitos, disputando a res pública, ou seja, a coisa pública, como leões famintos disputariam um pedaço de picanha, melhor, como a população soteropolitana disputa diariamente um cantinho onde possa se equilibrar no transporte coletivo que promete perpetuar seu desserviço para a cidade por mais cinquenta anos se depender das articulações sociais.

Decerto que a participação do povo nas eleições fomenta a natureza democrática do nosso Estado, que ainda nós compele a sair às ruas nos dias de eleição, é de se questionar o preparo que a maioria desses cidadãos possuem para lidar com o patrimônio público, exercer a função pública em nosso nome, e, portanto nos servir, debruçando-se sobre parte da autonomia e do poder político conferido a eles através de nosso voto e sob a proteção da Constituição Federal, a Lei Maior. Poucos candidatos elegíveis não indicariam preparo ou qualidade, todavia, a multidão destes que se asseveram pode revelar que a satisfação particular de estar investido em relevante posição política, social e econômica esta à frente do interesse público, até mesmo neutralizando a real preocupação em gerir cada vez melhor um contingente urbano maltratado, mitigado e desiludido.

A criação de uma lei, por exemplo, envolve articulação política de pessoas que elegemos para editá-las. Podemos considera-las como fruto de um contrato do corpo social para com o Estado, e essa é uma concepção moderna, ou imaginar como preleciona Duguit, que as leis não são senão o reflexo da vontade do legislador dotado de poder para comunicar-lhe uma função. É o bem comum que precisa ser fomentado, a sociedade precisa da proteção do Estado que vai da segurança jurídica a segurança pública. O fronteiriço terreno da resiliência já foi ultrapassado e já não há mais espaço para tanta verba pública na cueca, para a criação de projetos de lei que jamais poderiam ser consolidados tão somente para captar votos e mais votos de uma população aculturada e espezinhada do alto de sua inação. Se política e negócio fossem a mesma coisa a gramática informaria a ambas ao menos a condição de sinônimos. 

Por Marcos Araújo

terça-feira, 17 de julho de 2012

verborragia

Há uma faca apontada na minha cara, mas é a frase que corta primeiro, pega mal, contudo há de fato uma faca afiada, apontada, ainda que a frase não seja eufônica, ela anuncia o final, digo - não se afasta -, mas me refiro à faca que me aponta feito dedo indicador, punhal. Um punhado de raiva encetando o cometa que rasga as horas, todo minuto se torna ano ante essa má sorte de viver com a maldita na cara, às claras, apontada, pronta pra sangrar mais uma palavra desacertada que também vai ferir, e arrancar do peito um coração com espada, sem lâmina e sem fim, essa é a palavra que agrega a construção ao dom de destruir. Aponta, e faz sangrar, pior que faca amolada.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

IN




É neste interím incauto que me assombro sempre, na madrugada não há luz que me ilumine, nem passos que libertem minha trilha, tudo se transforma em via crucis, e o fardo é sempre pesado demais sob a cabeça que também é mundo, é fundo de caixa rasgada espezinhando minhas emoções e atirando-as num breu, relento. Lamento que nem todos os tormentos possam sair e vagar alhures, não há tempo aqui, nem em mim, para digerir essa cólera habitual, essa avidez caústica que comunica tudo o que não foi em minha vida, mas se fez pra você em carne, osso e coração. Sobra aqui a saudade que invade essa nefasta hora de não ter vivido o tempo em seu tempo (meu melhor conselho); e a angústia travestida de tudo quanto puder conceber, dizendo saber que o ajuste dos ponteiros não foi mais que mera conveniência. Não foi necessidade, não é questão de aparência, tudo resvala no fato de ter cansado dos “nãos”, e embora não tenha sido vencido, é no manto estrelado  que afaga e penteia a madrugada que habito sem dormir, sem viver, e frequentemente sem me visitar.

domingo, 17 de junho de 2012

oração epistolar



Tu que não respeita nada, nem a pele negra que te guarda: respeita as ayabás, os orixás, a Senhora-Mãe Menininha do Gantois, respeita os caboclos que se espreitam neste quilombo, não faz desfeita do costume que oprimes, respeita meu atabaque e meu terreiro, não me aceita – RESPEITA –, respeita e só. Nosso São Jorge, nosso sangue sagrado, meu suor, respeita a baianidade nagô, e todos os padroeiros da Bahia, respeita que faz bem e ilumina o coração. Não me aceita não, não é assim que me esmero. Entre a dúvida e o vitupério: Respeita.


Por Marcos Araújo

06 de maio


 Pediram-lhe algo pra vestir, e Ele atendeu o moço. Adornou-lhe com um manto distinto, bordado com os fios de um universo paralelo, e se fez no tecido uma força quase coesa, quase bonita, quase reluzente feito ouro, feito prata, feito imitação. Podia ser tudo, conquanto não fosse o que de fato lhe faria regozijar, era um manto de monta aos olhos de quem via, mas em verdade não tinha valor, era demagogia inscrita em forma e matéria travestida de Amor.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

dos desencontros

Doutor, é que não tenho trilhos, nem tribo, ando por esse lugar pra alimentar meu coração, minha arte, para me banhar na líquida fluidez da vida. Ando a par do tempo e das coisas, vejo tudo, bem atento, nada passa por mim sem despir primeiro as indumentárias da aparência, do ardil. Afasto o bom e o injusto, sequestro todos quanto posso abrigar no avesso do peito. Não tenho dinheiro no bolso, mas jaz em torno de tudo o que toco a ideia grão, o princípio - é o meu escudo, guarida erguida para os dias que virão. Veja bem, doutor, tudo em vida é encontro e despedida feito aquela canção, e quantos aos outros, aos mesmos, aos “nós”, eternizo a voz doutro amigo: não se deve aliciar o pranto pra quem já houvera partido.

Por Marcos Araújo

sexta-feira, 27 de abril de 2012

substantivando



Eu vou embora cedo e não voltarei ao ponto de partida, não aprendi a reverter os ponteiros nem desvendar o fronteiriço terreno da verdade, minha sina e o meu compromisso é com que ainda não nasceu, com a música ainda decomposta, com o mundo que  não vi porque só existe nessa sombra vaga que é o Amanhã, assim mesmo, feito substantivo próprio. Não volto e nem hei de voltar porquanto os passos que se encerram ao meu redor não me acompanham, a maioria sequer me apetece; portanto tornar-me-ei espécie distinta por aí, me hostiliza e avilta essa hora vaga que vivo e não me permite aprender uma infinidade do tudo que ainda não senti. Transcrevo então o poeta cuja palavra se fez eterna:

" - Meu tempo é quando ".

Por Marcos Araújo 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

joão sem terra




Misógino gentil:
Tu és letra morta
Informa em mim o que há de pior
Perde-se na desordem da rima
Inquina de miudeza a rima torta
Jaz dos fundos, foge às clareiras
Perpassa a janela, enquanto entreaberta a porta

Esvai daqui, ignominioso
Ruma alhures com teus laços tristes
Decai enquanto peso, pedra no sapato
Misantropo, nefasto, rei do que é ruim
Lobo aspirante a homem travestido de pedra
Medra noutras fontes e te retiras daqui
Tão certo que te deixo, quão cedo que partes?
O que é seu tranco às chaves. Esquecer-me-ei de abrir.