Não vê a menina suja pedindo
trocado no sinal, não vê a mosca solta sobre a ferida alheia, não vê o que
despenteia, nem o que mata, que dirá o que estraga a família inteira, não vê o
morto de fome, nem o morto-sem-nome, se esbarra e não pede desculpa, não vê boa
conduta, nem ama de igual pra igual, vê teu sexo e com quem se deita, qual laço
se enfraquece, mas quem adoece só é visto no Final. Não vê o que nos cala e
incendeia, ignora quando a brisa é farta e a clareira dos céus sobre o mundo.
Não vê Maria ou João sem sobrenome, nem a truculenta solidão que consome, não
vê nada além do olho roto que mira a TV feito esgoto afogando e afagando, e informa quão raro é quem olha, quão
escasso quem enxerga. Não vê coisa séria se tudo é estupidez, ignora sensatez,
e zomba do policial parado na esquina esperando a morte chegar feito bailarina
girando com sua sorte. Não vê quem mata sem faca, e escolhe não perceber pequenas chacinas contidas no
nababo escroto/deputado federal apontando sua arma de lá do Congresso. Candelárias, Realengos, Pinheirinhos: Não vê.
Quem viu? Não aguento. Seguidores
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
vistes?
Não vê a menina suja pedindo
trocado no sinal, não vê a mosca solta sobre a ferida alheia, não vê o que
despenteia, nem o que mata, que dirá o que estraga a família inteira, não vê o
morto de fome, nem o morto-sem-nome, se esbarra e não pede desculpa, não vê boa
conduta, nem ama de igual pra igual, vê teu sexo e com quem se deita, qual laço
se enfraquece, mas quem adoece só é visto no Final. Não vê o que nos cala e
incendeia, ignora quando a brisa é farta e a clareira dos céus sobre o mundo.
Não vê Maria ou João sem sobrenome, nem a truculenta solidão que consome, não
vê nada além do olho roto que mira a TV feito esgoto afogando e afagando, e informa quão raro é quem olha, quão
escasso quem enxerga. Não vê coisa séria se tudo é estupidez, ignora sensatez,
e zomba do policial parado na esquina esperando a morte chegar feito bailarina
girando com sua sorte. Não vê quem mata sem faca, e escolhe não perceber pequenas chacinas contidas no
nababo escroto/deputado federal apontando sua arma de lá do Congresso. Candelárias, Realengos, Pinheirinhos: Não vê.
Quem viu? Não aguento. quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
A festa de Momo tem cor?
No primeiro dia de carnaval ouvi
algo que me chamou atenção, se trata daquelas coisas que a gente escuta
aleatoriamente e não sai de forma alguma da nossa cabeça. Pois bem. Detesto
discursos tendentes a generalizar a homofobia, o racismo, a xenofobia, pois que
me parece moda encalacrar todos os males do mundo nessas legendas, mas ouvi com
estranheza na quinta feira passada uma jovem branca de classe média alta dizer
que o mentor de “Gangnan Style” só
estava chamando tanta atenção pelas ruas soteropolitanas por conta da
aparência, mas o Presidente dos Estados Unidos, sua mulher e filhos, poderiam
vir tranquilamente e ficar no meio do povo, todos pensariam que a família Obama
estaria camuflada vendendo cerveja no isopor.
Não compreendi, ser preto é
pré-requisito pra vender cerveja na rua? Curioso foi vivenciar por três vezes
em ocasiões distintas durante a folia a confusão que transeuntes faziam ao me
confundir com um vendedor de cerveja, naturalmente, essas pessoas lançavam um
olhar apressado, pediam as populares 3“periguetes” por cinco reais (pequenas
latas de cerveja), estendiam o dinheiro, e como a situação seguia com o meu
silêncio, se fazia o constrangimento no ar, portanto saíam em silêncio e
fingiam que aquilo não havia acontecido. Ao relatar o acontecimento numa das
minhas redes sociais um amigo fez o seguinte comentário: “Sou o preto que supervisiona uma equipe de 18 pessoas num hospital de
grande porte, mas quando vou à padaria, sou atendente, numa loja, sou
atendente, nunca no caixa, jamais cliente”. Não preciso da luz de um gênio
pra notar que é assim comigo também.
Duvido que haja quem creia que
quem passa todo o carnaval dormindo nas calçadas dos Circuitos Dodô e Osmar esteja
feliz (não raro famílias inteiras), onde a gente pisa, pula, e cospe, por onde
o povo urina; lá muita gente vê o trio elétrico passar enquanto vende cerveja,
cachorro quente, espetinho de churrasco etc. Ainda assim, não derramo uma gota
da dignidade desse labor, e creio mesmo que apesar da miséria, se trata de
dinheiro honesto, certo que a assertiva já é clichê – diga-se de passagem, um dos melhores – se é vergonhoso vender
cerveja na rua, o que diremos de quem sai de casa disposto a enfiar uma faca na
sua cintura e levar seu dinheiro, seu celular e/ou sua vida? Não sei se meu
medo de entrar numa grande neurose com questões de raça, gênero, regionalismos,
pode ser maior do que as dúvidas que vieram à tona: um preto perto de um isopor
na festa momesca só pode ser vendedor? E no camarote, é o garçom ou o
segurança? Em cima de um trio, o que eu seria? A coincidência bateu na minha
porta três vezes ou se trata de um gérmen asqueroso guardado na consciência coletiva
da nossa sociedade?
Gostaria humildemente de
responder essas questões com equilíbrio necessário para pensá-las sem quaisquer
vícios, com mais delicadeza e neutralidade, se possível for. Entretanto, só há
uma dúvida que não me comunica, pois que nem poderia me pertencer: já me sinto
da família Obama.
Por Marcos Araújo
domingo, 10 de fevereiro de 2013
02/13
Não houve outro tempo pra mim que aproximou tanto a tênue
linha que existe entre os sentimentos, todos eles, dos que se reprimem no
coração aos que perpassam os lábios, as mãos, os braços que se cruzam; e, ainda
que se trate de covardia, que boa era aquela época que acreditava na promessa
do desenho animado me informando que se existe bem e mal nesse mundo, coexistem
em universos distintos, cada qual com suas peculiaridades. Não era verdade, descobri
que esse maniqueísmo inventado só nos inspira a sofrer menos, enxergar
as desgraças da vida com menos tristeza. Apesar disso tudo, e de nem me
considerar homem feito ainda, não sou uma pessoa má, nem como se diria nesse
mundo nem o seria num desenho. Falível que sou, passível de erro, de cair
doente, de chorar vendo filme, de me distrair ouvindo música boa, de amar, de
amor, não sou uma pessoa má. Sou gente de verdade.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
videogames
Por Marcos Aráujo
terça-feira, 16 de outubro de 2012
é o grito
É grave o nosso estado de greves de fome de gente que pensa. É grave a FIFA querendo invadir a dispensa e jogar fora o prato da casa, sentar na mesa, por os dois pés no sofá, é grave tanto jingle eleitoral, tanto panfleto entupindo a boca de lobo que não se cala mais que muito cidadão, que entope e cospe essa sujeira que parece correr nas nossas veias. Tão grave é ninguém se importar, com nada e com que quase ninguém, amar a tudo que não prospera, tudo que passa e não deixa mais que marca pueril, o consumismo desalenta, a esperança não satisfaz mais, é tanta vírgula violentando as reticências que nunca darão um fim na gravidade dos fatos que se escondem nessas palavras malcriadas. É grave tantas greves e não são por acaso, aliás, nada é por acaso, e não é por desamor ao homem que vejo com descaso a matéria da Folha velando o nababo carbonizado na milionária lamborghini incendiada no estreitamento funesto da estrada, sorte é de quem não estava lá, no malsinado fato pra ver seu brio ceifado pelas mãos d'outro Thor Batista, e virar estatística pra nossa gente ver e esquecer. Tenho medo do que é grave é ninguém liga, principalmente dessa chacina intelectual assistida do primeiro ao terceiro P(h)oder que festeja o coma do povo
Por Marcos Araújo
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
casarão
De madrugada não é hora de
arrumar a casa, nem de lavar a roupa suja acumulada, é tempo de silêncio no
qual o corpo sente a euforia dessa angústia de querer fazer tudo numa só hora. Abro
as janelas, ligo a TV, leio escritos doutra vida em que chorava à toa, sem
saber por que chorava. A vida era boa e olvidei, agora vivo omisso com a luz
apagada e não enxergo a balbúrdia da casa que grita, ulula, e pede com fala
mansa pra reconstruir-se sobre si. Desarrumada que está, ora, pois, pouco me
agrada. Tomba a estrutura deixa ruir
essa essas paredes que sequer me comunicam o lar, deixa que baguncem, deixa
bagunçar e ruir até o final, até tombar, não vou me levantar com a intenção de
fugir, vou ficar aqui sem arrumar a casa. Eis que desaba o teto que acalentou, se
esvaiu o chão que sustentava, e nada restou da bagunça, tampouco dos
esconderijos da casa, nada resta além da lágrima falada.
Por Marcos Araújo
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
para não perder o pensamento

Com certa tirania da minha percepção não posso deixar de reconhecer que o sistema operacional do smartphone que uso é mais dinâmico do que muitas pessoas que se situam no tempo e no espaço repetindo mandamentos tenros, executando tarefas descontextualizadas do todo sem saber pensar em si como parte integrante de um sistema que é contínuo pela existência e hierárquico pela própria natureza. Repetir certos comportamentos me inquieta até mesmo quando medram de um fato cultural, isso sempre traz uma dose de temerosidade. Se o mundo é heteronormativo, se as relações se espraiam no elitismo, se é obrigação fazer o sinal da cruz e pedir misericórdia à Santa Trindade toda vez que passar na frente da igreja, eis meu prognóstico, e meu autismo voluntário.
Por Marcos Araújo
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