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domingo, 10 de fevereiro de 2013

02/13


Não houve outro tempo pra mim que aproximou tanto a tênue linha que existe entre os sentimentos, todos eles, dos que se reprimem no coração aos que perpassam os lábios, as mãos, os braços que se cruzam; e, ainda que se trate de covardia, que boa era aquela época que acreditava na promessa do desenho animado me informando que se existe bem e mal nesse mundo, coexistem em universos distintos, cada qual com suas peculiaridades. Não era  verdade,  descobri  que esse maniqueísmo inventado só nos inspira a sofrer menos, enxergar as desgraças da vida com menos tristeza. Apesar disso tudo, e de nem me considerar homem feito ainda, não sou uma pessoa má, nem como se diria nesse mundo nem o seria num desenho. Falível que sou, passível de erro, de cair doente, de chorar vendo filme, de me distrair ouvindo música boa, de amar, de amor, não sou uma pessoa má. Sou gente de verdade

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

videogames



Avisa pra Mário que o enganaram por toda vida, mas é melhor não contar dos irmãos mais sofisticados que vão aparecendo a cada nova versão do game, pode magoar. É que não se trata mais de salvar uma princesa trancafiada à própria sorte num castelo, não se trata de matar o dragão e ser herói, se puder, avisa pra o Luigi também. Essas finalidades não convencem mais, ao menos desde que abandonei a tenra idade, Mário não pode ser herói se não juntar a maior quantidade de moedinhas douradas, dane-se a princesa, o castelo, e o dragão, que se multipliquem e destruam em fogo o jogo. Se Mário não juntar, não conseguir, ou até mesmo se perpassar os portões do castelo e a princesa salvar, sua história só vai parecer valiosa diante do olhar desnudo do infantil jogador, que ainda não faz vida negócio, barganha, competição. Essa é a grande obrigação: junte as moedas de ouro ou caia fora do jogo.

Por Marcos Aráujo

terça-feira, 16 de outubro de 2012

é o grito


É grave o nosso estado de greves de fome de gente que pensa. É grave a FIFA querendo invadir a dispensa e jogar fora o prato da casa, sentar na mesa, por os dois pés no sofá, é grave tanto jingle eleitoral, tanto panfleto entupindo a boca de lobo que não se cala mais que muito cidadão, que entope e cospe essa sujeira que parece correr nas nossas veias. Tão grave é ninguém se importar, com nada e com que quase ninguém, amar a tudo que não prospera, tudo que passa e não deixa mais que marca pueril, o consumismo desalenta, a esperança não satisfaz mais, é tanta vírgula violentando as reticências que nunca darão um fim na gravidade dos fatos que se escondem nessas palavras malcriadas. É grave tantas greves e não são por acaso, aliás, nada é por acaso, e não é por desamor ao homem que vejo com descaso a matéria da Folha velando o nababo carbonizado na milionária lamborghini incendiada no estreitamento funesto da estrada, sorte é de quem não estava lá, no malsinado fato pra ver seu brio ceifado pelas mãos d'outro Thor Batista, e virar estatística pra nossa gente ver e esquecer. Tenho medo do que é grave é ninguém liga, principalmente dessa chacina intelectual assistida do primeiro ao terceiro P(h)oder que festeja o coma do povo





Por Marcos Araújo

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

casarão


De madrugada não é hora de arrumar a casa, nem de lavar a roupa suja acumulada, é tempo de silêncio no qual o corpo sente a euforia dessa angústia de querer fazer tudo numa só hora. Abro as janelas, ligo a TV, leio escritos doutra vida em que chorava à toa, sem saber por que chorava. A vida era boa e olvidei, agora vivo omisso com a luz apagada e não enxergo a balbúrdia da casa que grita, ulula, e pede com fala mansa pra reconstruir-se sobre si. Desarrumada que está, ora, pois, pouco me agrada.  Tomba a estrutura deixa ruir essa essas paredes que sequer me comunicam o lar, deixa que baguncem, deixa bagunçar e ruir até o final, até tombar, não vou me levantar com a intenção de fugir, vou ficar aqui sem arrumar a casa. Eis que desaba o teto que acalentou, se esvaiu o chão que sustentava, e nada restou da bagunça, tampouco dos esconderijos da casa, nada resta além da lágrima falada. 

Por Marcos Araújo

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

para não perder o pensamento




Com certa tirania da minha percepção não posso deixar de reconhecer que o sistema operacional do smartphone que uso é mais dinâmico do que muitas pessoas que se situam no tempo e no espaço repetindo mandamentos tenros, executando tarefas descontextualizadas do todo sem saber pensar em si como parte integrante de um sistema que é contínuo pela existência e hierárquico pela própria natureza. Repetir certos comportamentos me inquieta até mesmo quando medram de um fato cultural, isso sempre traz uma dose de temerosidade. Se o mundo é heteronormativo, se as relações se espraiam no elitismo, se é obrigação fazer o sinal da cruz e pedir misericórdia à Santa Trindade toda vez que passar na frente da igreja, eis meu prognóstico, e meu autismo voluntário.














Por Marcos Araújo

domingo, 12 de agosto de 2012

res publica


Ao caminhar pelas ruas e ouvir os inúmeros jingles eleitorais, os panfletos espalhados enxovalhando a Av. Manoel Dias, os diversos comitês espalhados pela cidade, e já perceber o item negocial típico das eleições que vincula o mau eleitor ao gestor pernicioso, é que afasto as últimas dúvidas quanto ao crescente interesse das pessoas em se ocuparem das atribuições de vereadores, prefeitos, disputando a res pública, ou seja, a coisa pública, como leões famintos disputariam um pedaço de picanha, melhor, como a população soteropolitana disputa diariamente um cantinho onde possa se equilibrar no transporte coletivo que promete perpetuar seu desserviço para a cidade por mais cinquenta anos se depender das articulações sociais.

Decerto que a participação do povo nas eleições fomenta a natureza democrática do nosso Estado, que ainda nós compele a sair às ruas nos dias de eleição, é de se questionar o preparo que a maioria desses cidadãos possuem para lidar com o patrimônio público, exercer a função pública em nosso nome, e, portanto nos servir, debruçando-se sobre parte da autonomia e do poder político conferido a eles através de nosso voto e sob a proteção da Constituição Federal, a Lei Maior. Poucos candidatos elegíveis não indicariam preparo ou qualidade, todavia, a multidão destes que se asseveram pode revelar que a satisfação particular de estar investido em relevante posição política, social e econômica esta à frente do interesse público, até mesmo neutralizando a real preocupação em gerir cada vez melhor um contingente urbano maltratado, mitigado e desiludido.

A criação de uma lei, por exemplo, envolve articulação política de pessoas que elegemos para editá-las. Podemos considera-las como fruto de um contrato do corpo social para com o Estado, e essa é uma concepção moderna, ou imaginar como preleciona Duguit, que as leis não são senão o reflexo da vontade do legislador dotado de poder para comunicar-lhe uma função. É o bem comum que precisa ser fomentado, a sociedade precisa da proteção do Estado que vai da segurança jurídica a segurança pública. O fronteiriço terreno da resiliência já foi ultrapassado e já não há mais espaço para tanta verba pública na cueca, para a criação de projetos de lei que jamais poderiam ser consolidados tão somente para captar votos e mais votos de uma população aculturada e espezinhada do alto de sua inação. Se política e negócio fossem a mesma coisa a gramática informaria a ambas ao menos a condição de sinônimos. 

Por Marcos Araújo

terça-feira, 17 de julho de 2012

verborragia

Há uma faca apontada na minha cara, mas é a frase que corta primeiro, pega mal, contudo há de fato uma faca afiada, apontada, ainda que a frase não seja eufônica, ela anuncia o final, digo - não se afasta -, mas me refiro à faca que me aponta feito dedo indicador, punhal. Um punhado de raiva encetando o cometa que rasga as horas, todo minuto se torna ano ante essa má sorte de viver com a maldita na cara, às claras, apontada, pronta pra sangrar mais uma palavra desacertada que também vai ferir, e arrancar do peito um coração com espada, sem lâmina e sem fim, essa é a palavra que agrega a construção ao dom de destruir. Aponta, e faz sangrar, pior que faca amolada.