Não houve outro tempo pra mim que aproximou tanto a tênue
linha que existe entre os sentimentos, todos eles, dos que se reprimem no
coração aos que perpassam os lábios, as mãos, os braços que se cruzam; e, ainda
que se trate de covardia, que boa era aquela época que acreditava na promessa
do desenho animado me informando que se existe bem e mal nesse mundo, coexistem
em universos distintos, cada qual com suas peculiaridades. Não era verdade, descobri
que esse maniqueísmo inventado só nos inspira a sofrer menos, enxergar
as desgraças da vida com menos tristeza. Apesar disso tudo, e de nem me
considerar homem feito ainda, não sou uma pessoa má, nem como se diria nesse
mundo nem o seria num desenho. Falível que sou, passível de erro, de cair
doente, de chorar vendo filme, de me distrair ouvindo música boa, de amar, de
amor, não sou uma pessoa má. Sou gente de verdade.
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domingo, 10 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
videogames
Por Marcos Aráujo
terça-feira, 16 de outubro de 2012
é o grito
É grave o nosso estado de greves de fome de gente que pensa. É grave a FIFA querendo invadir a dispensa e jogar fora o prato da casa, sentar na mesa, por os dois pés no sofá, é grave tanto jingle eleitoral, tanto panfleto entupindo a boca de lobo que não se cala mais que muito cidadão, que entope e cospe essa sujeira que parece correr nas nossas veias. Tão grave é ninguém se importar, com nada e com que quase ninguém, amar a tudo que não prospera, tudo que passa e não deixa mais que marca pueril, o consumismo desalenta, a esperança não satisfaz mais, é tanta vírgula violentando as reticências que nunca darão um fim na gravidade dos fatos que se escondem nessas palavras malcriadas. É grave tantas greves e não são por acaso, aliás, nada é por acaso, e não é por desamor ao homem que vejo com descaso a matéria da Folha velando o nababo carbonizado na milionária lamborghini incendiada no estreitamento funesto da estrada, sorte é de quem não estava lá, no malsinado fato pra ver seu brio ceifado pelas mãos d'outro Thor Batista, e virar estatística pra nossa gente ver e esquecer. Tenho medo do que é grave é ninguém liga, principalmente dessa chacina intelectual assistida do primeiro ao terceiro P(h)oder que festeja o coma do povo
Por Marcos Araújo
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
casarão
De madrugada não é hora de
arrumar a casa, nem de lavar a roupa suja acumulada, é tempo de silêncio no
qual o corpo sente a euforia dessa angústia de querer fazer tudo numa só hora. Abro
as janelas, ligo a TV, leio escritos doutra vida em que chorava à toa, sem
saber por que chorava. A vida era boa e olvidei, agora vivo omisso com a luz
apagada e não enxergo a balbúrdia da casa que grita, ulula, e pede com fala
mansa pra reconstruir-se sobre si. Desarrumada que está, ora, pois, pouco me
agrada. Tomba a estrutura deixa ruir
essa essas paredes que sequer me comunicam o lar, deixa que baguncem, deixa
bagunçar e ruir até o final, até tombar, não vou me levantar com a intenção de
fugir, vou ficar aqui sem arrumar a casa. Eis que desaba o teto que acalentou, se
esvaiu o chão que sustentava, e nada restou da bagunça, tampouco dos
esconderijos da casa, nada resta além da lágrima falada.
Por Marcos Araújo
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
para não perder o pensamento

Com certa tirania da minha percepção não posso deixar de reconhecer que o sistema operacional do smartphone que uso é mais dinâmico do que muitas pessoas que se situam no tempo e no espaço repetindo mandamentos tenros, executando tarefas descontextualizadas do todo sem saber pensar em si como parte integrante de um sistema que é contínuo pela existência e hierárquico pela própria natureza. Repetir certos comportamentos me inquieta até mesmo quando medram de um fato cultural, isso sempre traz uma dose de temerosidade. Se o mundo é heteronormativo, se as relações se espraiam no elitismo, se é obrigação fazer o sinal da cruz e pedir misericórdia à Santa Trindade toda vez que passar na frente da igreja, eis meu prognóstico, e meu autismo voluntário.
Por Marcos Araújo
domingo, 12 de agosto de 2012
res publica
Ao caminhar pelas ruas e ouvir os
inúmeros jingles eleitorais, os panfletos espalhados enxovalhando a Av. Manoel
Dias, os diversos comitês espalhados pela cidade, e já perceber o item negocial
típico das eleições que vincula o mau eleitor ao gestor pernicioso, é que
afasto as últimas dúvidas quanto ao crescente interesse das pessoas em se
ocuparem das atribuições de vereadores, prefeitos, disputando a res pública, ou seja, a coisa pública,
como leões famintos disputariam um pedaço de picanha, melhor, como a população soteropolitana
disputa diariamente um cantinho onde possa se equilibrar no transporte coletivo
que promete perpetuar seu desserviço para a cidade por mais cinquenta anos se
depender das articulações sociais.
Decerto que a participação do
povo nas eleições fomenta a natureza democrática do nosso Estado, que ainda nós
compele a sair às ruas nos dias de eleição, é de se questionar o preparo que a
maioria desses cidadãos possuem para lidar com o patrimônio público, exercer a
função pública em nosso nome, e, portanto nos servir, debruçando-se sobre parte
da autonomia e do poder político conferido a eles através de nosso voto e sob a
proteção da Constituição Federal, a Lei Maior. Poucos candidatos elegíveis não
indicariam preparo ou qualidade, todavia, a multidão destes que se asseveram pode
revelar que a satisfação particular de estar investido em relevante posição
política, social e econômica esta à frente do interesse público, até mesmo
neutralizando a real preocupação em gerir cada vez melhor um contingente urbano
maltratado, mitigado e desiludido.
A criação de uma lei, por
exemplo, envolve articulação política de pessoas que elegemos para editá-las.
Podemos considera-las como fruto de um contrato do corpo social para com o
Estado, e essa é uma concepção moderna, ou imaginar como preleciona Duguit, que
as leis não são senão o reflexo da vontade do legislador dotado de poder para comunicar-lhe
uma função. É o bem comum que precisa ser fomentado, a sociedade precisa da
proteção do Estado que vai da segurança jurídica a segurança pública. O fronteiriço
terreno da resiliência já foi ultrapassado e já não há mais espaço para tanta
verba pública na cueca, para a criação de projetos de lei que jamais poderiam
ser consolidados tão somente para captar votos e mais votos de uma população
aculturada e espezinhada do alto de sua inação. Se política e negócio fossem a
mesma coisa a gramática informaria a ambas ao menos a condição de sinônimos.
Por Marcos Araújo
Por Marcos Araújo
terça-feira, 17 de julho de 2012
verborragia
Há uma faca apontada na minha cara, mas é a frase que corta primeiro, pega mal, contudo há de fato uma faca afiada, apontada, ainda que a frase não seja eufônica, ela anuncia o final, digo - não se afasta -, mas me refiro à faca que me aponta feito dedo indicador, punhal. Um punhado de raiva encetando o cometa que rasga as horas, todo minuto se torna ano ante essa má sorte de viver com a maldita na cara, às claras, apontada, pronta pra sangrar mais uma palavra desacertada que também vai ferir, e arrancar do peito um coração com espada, sem lâmina e sem fim, essa é a palavra que agrega a construção ao dom de destruir. Aponta, e faz sangrar, pior que faca amolada.
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